Hoje vamos comemorar os 30 anos de um super single Dance. É som de Jackie 'O' - "Wonderwall"!!
Vamos começar?
O Jackie 'O' não foi exatamente um artista, como pensávamos que fosse nos anos 90 quando víamos o seu nome impresso nas coletâneas de CDs. Era apenas um projeto de Eurodance criado pelos produtores do selo Almighty Records...
A equipe, a vocalista, o projeto em si, são todos britânicos. O Jackie 'O' foi inaugurado oficialmente através deste seu primeiro single (e também muito longe de ser o último!) no dia 19 de abril de 1996.
Ao contrário da maioria dos projetos da Almighty, este teve apenas uma única vocalista que cantou todas as músicas lançadas, e o seu nome é Jill Saywood — mais conhecida como Jill Saward, e que também é a principal vocalista do Shakatak, um grupo funk muito popular no Reino Unido.
Nas antigas biografias do Jackie 'O', havia a informação sobre ele ter sido criado como uma resposta da Almighty à uma artista de covers de música dance especializada em recriar alguns dos maiores sucessos do rock dos anos 70, 80 e 90. Quem seria ela?? Até hoje carrego comigo essa dúvida!
Quanto ao nome do projeto — Jackie 'O' — se trata de uma homenagem a Jacqueline Kennedy-Onassis, falecida em 1994, e que no caso, foi a esposa do 35º presidente dos Estados Unidos - John F. Kennedy.
Quando a versão dance do Oasis foi distribuída, em 19 de abril de 1996, ninguém poderia imaginar o quão popular aquele lançamento se tornaria. A música impulsionou não só a construção de um novo selo da Almighty — Euphoric Records, mas também encorajou seus produtores para que lançassem muitos outros singles, que desde então desfrutou de uma sequência constante de sucessos.
A letra de "Wonderwall" é muito admirada até hoje. É sobre alguém que salva o eu lírico, além de apresentar um refrão icônico: "I said, maybe / You're gonna be the one that saves me / And after all / You're my wonderwall" ("Eu disse, talvez / Você vai ser quem vai me salvar / E afinal / Você é minha wonderwall"). O termo 'wonderwall' refere-se a uma pessoa especial, um porto seguro, não tendo tradução literal direta para o português, mas basicamente é essa pessoa que chega e te fortalece, que muda o seu mundo.
Martyn Norris, o produtor responsável pela gravação e lançamento do Jackie 'O' disse ao site The Guardian: "Aquele disco fez um sucesso fenomenal. Nunca entendemos por que algumas músicas faziam tanto sucesso, mas essa foi uma delas". Ele também era o fundador da Almighty Records e ainda tocava nos clubs gays britânicos, então complementou: "Não foi só a comunidade gay que gostou. Foi um público muito mais amplo".
No Brasil, essa versão dance de "Wonderwall" foi rapidamente licenciada pela Paradoxx Music e adicionada em várias coletâneas da gravadora paulistana, como "As 7 Melhores Volume 5", além de se tornar um hít em rádios como a Jovem Pan 2 e 97 FM.
Em seguida, e no mesmo ano de 1996, foi a vez de um novo single do Jackie 'O' chegar e abalar as estruturas: "Breakfast At Tiffany's".
Com a enorme popularidade da versão original (e 'roqueirinha') do Deep Blue Something, a versão enérgica de Jackie 'O' levou "Breakfast At Tiffany's" a um novo patamar nas pistas de dança. Aqui no Brasil, esteve em coletâneas que marcaram a adolescência noventista de muitos, como "As 7 Melhores Volume 6". Seu auge em nosso território foi muito parecido com o de "Wonderwall", sendo definitivamente duas tracks muito disputadas nos clubs e rádios brasileiros.
No verão europeu de 1997, o Jackie 'O' voltou com mais uma regravação de um roqueiro. Era a cativante e poderosa "Bitch", do grupo Meridith Brooks, que ganhou também uma versão dance cantada pela vocalista Jill Saward, embora nos discos ela nunca aparecesse creditada...
Morris também explicou um pouco sobre essa questão, de deixar os cantores sem crédito: "Quando começamos, usávamos cantores que possivelmente não queriam ser associados ao nosso trabalho. Sempre trabalhamos com cantores de renome, e alguns nem sequer consideravam fazer esse tipo de música. Alguns simplesmente diziam: 'Ah, não, não, não, eu faço backing vocals para vocês – mas não vou cantar como vocalista principal".
Não sei se é o caso de Jill Saward, mas alguns cantores não queriam ter seus nomes associados aos singles Dance. A cantora Jackie Rawe — que também trabalhou em muitas produções da Almighty — não parecia estar desconfortável quanto a isso, mas como alguns não queriam seus nomes nos discos, então acredito que foi algo que se tornou um padrão dentro da gravadora (não creditar nenhum vocalista).
Em consequência disso, apesar do sucesso que o Jackie 'O' alcançou, pouco foi divulgado sobre tal "artista". Algo assim também acontecia com a maioria dos projetos da Almighty (Obsession, Natalie Browne, Déjà Vu, Belle Lawrence, entre outros), pois nenhuma foto real destes cantores estampou as capas dos discos e nenhum show jamais foi realizado para promover estes lançamentos, gerando essa incógnita que perdura até hoje.
Jill Saywood (conhecida também como Jill Saward) nasceu no dia 9 de dezembro de 1953 em Tooting, Londres, Reino Unido, e tem atuais 72 anos de idade. Nunca houve dúvidas de que ela seria uma artista, pois sempre se exibiu e tentou entrar em cena nos eventos e nas festas quando ainda era muito jovem.
Mas, voltando ao 3º single de Jackie 'O' ("Bitch"), aqui no Brasil não repetiu o sucesso dos dois primeiros trabalhos, mas quando lançada no Reino Unido instantaneamente se tornou um dos covers mais tocados daquele ano.
Alguns meses depois, ainda em 1997, veio uma outra versão dance dos irmãos que deram sorte ao Jackie 'O': Oasis - "Whatever". Infelizmente o sucesso do Jackie 'O' aqui no Brasil ficou restrito apenas aos dois primeiros singles, mas em muitos países da Europa, principalmente no Reino Unido, essa nova versão provou que o Jackie 'O' era um dos projetos britânicos mais bem sucedidos dos últimos anos.
Em 1998, Jackie 'O' retornou com uma ótima versão do grande sucesso do Eagle Eye Cherry, "Save Tonight". A música ficou famosa por integrar uma trilha sonora da série "Queer as Folk". E os novos singles também não paravam de chegar...
Em seguida, veio "When You're Gone" , seu remake da música de Bryan Adams & Mel C, além de "That Don't Impress Me Much" e "Don't Be Stupid (You Know I Love You)", ambos da canadense Shania Twain.
Em 2000, o projeto Jackie 'O' lançou até um álbum no Reino Unido, intitulado de "Bitch", com 11 faixas, e justamente nessa época a música Eurodance estava passando por diversas modificações e tentando se ajustar com a sonoridade atual, porém, os singles do Jackie 'O' continuavam chegando e abusando da mesma fórmula já conhecida. O público britânico acabou conhecendo outras versões de Jackie 'O', como "Glorious", canção original de Andreas Johnson, e "It's My Life", hino do rock do Bon Jovi. Já no verão de 2001 foi lançado "Sing", um cover do Travis (a versão original tocou muito no Brasil nesse mesmo ano, e era uma das minhas favoritas), porém, as chances destas versões do Jackie 'O' entrarem nas paradas brasileiras estavam cada vez mais distantes, pois aqui a Eurodance estava seguindo mais os passos do Vocal Trance e da repaginada Ítalo Dance.
Em novembro de 2002, Jackie 'O' lançou mais um cover de Shania Twain, "I'm Gonna Getcha Good" (o terceiro sucesso da Shania que Jill Saward regravava). Já em 2005, Jackie 'O' gravou um cover de "Don't Cha , de Tori Alamaze. Sim, a versão das Pussycat Dolls também é uma cover de Tori Alamaze — uma cantora que assinou brevemente com a Universal Music como artista solo, e que depois, acabou sendo desligada da corporação.
No ano de 2006, Jackie 'O' busca inspirações mais uma vez no rock....e o projeto lança um cover de "I Don't Feel Like Dancin'", da banda Scissor Sisters. No ano seguinte, em outubro de 2007, um novo álbum chamado "Handbag Heaven" foi lançado e nele incluía nada menos que 4 CDs com músicas mais recentes de Jackie 'O'.
"Tentamos tratar as músicas da melhor maneira possível, e acho que conseguimos entregar o que é artisticamente aceitável." - Martyn Morris
O Jackie 'O' era um produto apenas de regravações, assim como a maioria das criações da Almighty Records, mas, o que será que pensavam os artistas das músicas originais quando ouviam estas versões Dance??
Quanto a opinião destes artistas, as informações são frustrantemente escassas. Nunca que o Oasis (que naturalmente são um "nojo"), iriam soltar alguma nota positiva ou negativa sobre a versão dance de "Wonderwall". Isso daria mais visibilidade ainda para os produtores responsáveis pelo remake, e estes artistas não queriam isso. Na verdade, são poucos os artistas que oferecem algum apoio quando se trata de um cover dance. Há todo um preconceito também. Muitos acham "fofinho" quando um artista pega uma música bem agitada e transforma ela num pop acústico, mais lento, mas quando é feito o contrário, quando pegam uma música mais lenta e deixam ela mais acelerada, parece que as reações são bem opostas.
A Almighty continuou fazendo inúmeras versões de sucessos do Rock e Indie nos anos 2000, e eles enfrentaram um outro dilema: quando há também o fato da gravadora querer barrar estes covers, como aconteceu com "You're Beautiful" de James Blunt, e também com "Life on Mars" de David Bowie, feitos pela Almighty e que foram impedidos de serem lançados na íntegra. Mas, nesses casos, nunca se pode ter certeza se a ordem partiu diretamente do artista ou apenas de alguém da equipe que trabalha para proteger a obra.
Quanto aos remakes feitos pela Almighty de "Everybody's Changing" e "Somewhere Only We Know", lançados pelo projeto Deja Vu, os integrantes da banda Keane também não falaram nada a respeito. Inclusive, muitas destas versões dos anos 2000 pendem para um Indie mainstream, como Coldplay, The Killers, Snow Patrol... e isso permite que uma certa melancolia seja refeita ou que ganhe uma vibração bem diferente da original, sendo algo que também pode desagradar aos fãs dessa abordagem ou até mesmo os artistas originais.
Para Martyn Norris, essas considerações são irrelevantes: "Já irritamos os esnobes do indie há anos". Mas, na maior parte das vezes, Morris busca simplesmente canções memoráveis, cujos pontos fortes intrínsecos resistam à transição, como "Viva La Vida" do Coldplay, que surgiu como um cover da Almighty muito antes da dupla do Pet Shop Boys a adicioná-la no repertório de suas turnês.
"Essas são as músicas perfeitas para fazer covers. É o mesmo com o Arctic Monkeys. Mas, basicamente, é a música em si. Tem uma melodia forte? Tem um refrão marcante? Vai funcionar bem na pista de dança? É simples? E as músicas do Coldplay são muito bem escritas. Não são complicadas demais, como as músicas de décadas passadas – como algumas músicas do Elton John, que são bem complexas. Descobrimos que as que funcionam para nós são as músicas mais contemporâneas. E se não houver versões dançantes, melhor ainda." - Martyn Norris
JILL SAWARD - A HISTÓRIA
Quando Jill Saward completou 16 anos, soube que esta era a hora de entrar para o ramo da música. Na época, as mulheres desempenhavam um papel pequeno na cena musical britânica; havia as garotas bonitas do pop, os trios de soul americanos e as roqueiras agressivas com pouca ou nenhuma feminilidade. Jill era uma grande fã de Jazz Rock Progressivo e decidiu que este deveria ser o estilo de banda que procuraria para atuar.
Foi quando Jill viu um anúncio numa revista procurando por um vocalista masculino "com atitude", e pensou que a vaga deveria ser dela! Desnecessário dizer que ela conseguiu a vaga com muita audácia e determinação. A banda se chamava Fusion Orchestra, que então iniciou um trabalho com a pequena vocalista.
Jill tinha apenas 16 anos em 1969, mas mentiu sobre a idade para que os outros membros não a achassem muito jovem. Jill provou ser muito competente vocalmente, e logo revelou outros talentos, além de vocalista principal se tornou flautista e multi-instrumentista da banda — tocando teclados, sintetizador e guitarra — e se tornando rapidamente uma figura central e contribuindo com composições originais e performances dinâmicas que ajudaram a definir o som do grupo.
A banda se dissolveu em maio de 1975 devido a pressões financeiras e mudanças na formação, então Jill Saward buscou oportunidades como cantora freelancer em meados da década de 1970, contribuindo com vocais para várias gravações sem se comprometer com a participação efetiva em uma banda (característica que se manteve nos anos 90 quando gravou Eurodance para vários projetos, onde não se fixou a nenhum em específico).
A vocalista envolveu-se num novo grupo totalmente feminino chamado Brandy, e depois se juntou ao Cats Whiskers, um grupo proeminente de Soul/Funk, onde ela forneceu seus vocais como cantora de estúdio para álbuns de covers, adquirindo daí, talvez, um pouco da experiência que ela levaria para a Almighty Records, sendo uma cantora de estúdio e gravando versões dance de rock.
No final da década de 1970, Saward teve uma breve passagem pelo Citizen Gang, um grupo formado exclusivamente por mulheres, criado em 1979.
Mas o grande ato na carreira de Jill Saward aconteceu quando ela juntou-se ao Shakatak, no início dos anos 80. Ela foi a vocalista principal e multi-instrumentista da banda, contribuindo com congas e flauta para o seu som. Formado em Londres, em 1980, o Shakatak inicialmente contou com vocalistas convidados em seu álbum de estreia "Drivin' Hard" (1981), onde Saward forneceu vocais de apoio ao lado de Jackie Rawe (outro talento que foi levado anos depois para a Almighty Records e também para a música do Cappella - "Move It Up").
No álbum "Night Birds" (1982), forneceu seus vocais principais na faixa-título, juntamente com as contribuições de apoio de Jackie Rawe e Lorna Bannon (outra cantora que foi para a Eurodance nos anos 90 e também atuou no Cappella). Com o single "Night Birds", o grupo alcançou o número 9 na parada de singles do Reino Unido, e o estilo vocal de Saward ajudou a adicionar uma dimensão emotiva aos arranjos de jazz-funk.
Com este trabalho, Jill Saward aprimorou suas habilidades versáteis, que preparou-a para atuar também nos estúdios da Eurodance, que ocorreu em meados dos anos 90, mas ela nunca deixou de atuar no Shakatak e até hoje faz apresentações com eles (e também de forma solo).
A banda é extremamente prolífica e estão sempre lançando novos álbuns de estúdio, muitos dos quais são focados no mercado japonês. Durante o auge do Shakatak, de meados da década de 1980 até a década de 2010, Saward foi a vocalista principal na maioria dos mais de 40 álbuns de estúdio e ao vivo da banda. Singles notáveis deste período, como "Day by Day" (1985), alcançaram sucesso internacional, com as harmonias de Saward aprimorando colaborações que expandiram o alcance global da banda.
A talentosa artista sempre estava trabalhando em algum disco para o Shakatak, inclusive, quando os dois primeiros singles do projeto Jackie 'O' foram lançados, Jill Saward também estava focada na produção do álbum "Let's Start Over Again" do Shakatak, disco lançado no mesmo ano de 1996.
Além dos singles do Jackie 'O' que chegaram aos clubs, rádios e coletâneas, houve ainda outras colaborações interessantes de Jill Saward com a Almighty nos anos 90... Por exemplo, é dela também a voz que ouvimos no hít "Anytime" do projeto Obsession! Sim, no CD "As 7 Melhores Volume 5" tem duas faixas na voz dela, essa do Obsession e também "Wonderwall" do Jackie 'O'.
Falando nisso, é bom registrar aqu que Jill Sawars trabalhou com diversos pseudônimos na música em seus mais variados gêneros, como os nomes registrados: Carol Kay, Connie Laverne, Dee Dee Martin, Diana Dee, Desiderata, Diana Foster, Miss Dee Dee, Ruth Swann, e etc (além de Jackie 'O', é claro!).
Jill Saward casou-se com George Anderson, baixista do Shakatak, e com ele ficou casada durante 13 anos. O casal teve dois filhos, Luis (nascido por volta de 1990) e James (nascido por volta de 1994), cuja criação coincidiu com a agenda ativa da cantora, que atuava no Shalatak e também nos estúdios da Almighty Records, exigindo que Jill Saward conciliasse as demandas da maternidade com seus compromissos musicais. O casal se separou em 2001, mas o divórcio foi finalizado apenas no final de 2011, após uma longa batalha judicial sobre os bens, marcando o fim de um período difícil para a família.
Um fato curioso, é que em 2008, Saward assumiu um papel de destaque no reality show "Pop Goes The Band", que acompanhava ex-integrantes de bandas pop dos anos 80 — incluindo representantes do Bucks Fizz, Bananarama e Visage — enquanto se submetiam a procedimentos estéticos e se preparavam para apresentações. O programa ofereceu a Saward a oportunidade de refletir sobre sua trajetória profissional e interagir com uma nova geração de telespectadores por meio de uma abordagem multimídia.
Após o seu divórcio de 2011, Jill Saward iniciou um relacionamento com o empresário Chris Johnson. Em 2025, o casal se casou e passou a viver na Sardenha (Itália), onde Saward concilia suas atividades musicais com uma vida familiar mais estável e tranquila. Ah, e em 2025 ela também se tornou avó.
Jill Saward mantem um envolvimento ativo na música sem se aposentar completamente, operando um pequeno estúdio de gravação em sua casa, na Sardenha, para colaborações locais e projetos pessoais.
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